quarta-feira, 15 de junho de 2016

Pausa pro café



Sem querer, acabei te procurando numa das rodas de conversa que se formaram. Busquei a tua voz no meio das outras e, entre as pessoas sentadas naqueles bancos gelados de concreto, quis te encontrar com as pernas cruzadas e as mãos entrelaçadas sobre os joelhos, rindo de algo ou contando alguma história.

Eu sabia o que estava acontecendo, mas quis fingir que não, por isso ainda esperava te ouvir chamando alguém para conversar e tomar um café. Fiquei alguns segundos ali parada, te olhando, abraçada em alguém e pensando que a gente não tem mesmo controle de nada.

É estranho pensar que eu, com 25 anos, já tenha passado por isso umas dez vezes e isso nunca ficar mais fácil. Nunca. Cheguei à conclusão que a gente só aprende a suportar o insuportável. Aprende a lidar com a dor, com a sensação de sufocamento, com o aperto no peito, com o desespero de não ver mais alguém que ama... e vai ficando mais forte.

É tipo um exercício físico: vamos treinando e aprendendo a carregar pesos cada vez maiores sem sofrer tanto, mas o peso continua lá... a carga é do mesmo tamanho (ou maior) do que era antes, só nos acostumamos a carregar sem sentir tanta dor. Aprendemos a encarar de outro jeito e pensar só nas coisas boas.

12 de junho seria um dia de festa uns anos atrás. Vó Olívia, que me fazia morangos do quintal com açúcar e me ensinou a subir no telhado para apanhar os chuchus que nasciam lá pra cima do paiol, nos receberia com beijos estalados e abracinhos apertados. Ela me diria que ainda tinha balas de anis na geladeira enquanto o vô Juca, sentado à beira do fogão à lenha, estaria mexendo no fogo com uma grimpa de pinheiro levantando um pouco de brasa debaixo da chapa. Talvez ele me chamasse para jogar pife, talvez comentasse algo da ida de fusca até a praça, talvez inventasse um nome qualquer e meio esquisito para um dos bezerros do sítio só para me deixar feliz (e para eu parar de perguntar o motivo do coitado não ter nome).

Mas não estão mais aqui nem a vó Olívia, nem o vô Juca, nem o tio Toni, tio Silvio ou tio Paulo... e agora nem você. Só sobrou o que a gente lembra.

Minha mãe hoje me contou uma história que eu não lembrava. Ela disse que não conseguia parar de pensar em você e ela na sacada, alguns anos atrás, naquele dia em que um ciclone atingiu Santa Catarina. Você apareceu aqui em casa carregando consigo a tia Irene, o Dani e um colchão, certo de que vocês estariam mais seguros aqui caso o tal furacão rodopiasse para esses lados. Agora eu só consigo pensar que a segurança que você sentia com a gente, nós sentíamos com você também.

E ísso. Eu vou sentir a tua falta. Não tenho muito o que dizer além de tudo que já disse, mas queria te pedir uma coisa: Quando você encontrar com eles para tomar aquele café e colocar em dia a conversa de tantos anos, dá um abraço e um beijo em cada um deles por mim?

terça-feira, 3 de maio de 2016

Souvenir

Neste momento percebo que guardo lembranças como se fossem suvenirs de viagens passadas. Guardo numa caixa tentando não perder. Às vezes quero jogar alguma coisa fora, mas a caixa não tem fundo e as lembranças se misturam lá dentro. É difícil encontrar ou alcançar algumas coisas, outras são difíceis de esquecer.

Eu tenho medo de perder o suvenir da voz da vó Iolanda, ou da cor dos olhos da vó Olívia, ou da sensação da mão gelada do vô Hercílio no meu rosto, me reconhecendo pelos meus traços e voz. Eu tenho medo dessas coisas importantes se perderem no buraco negro da minha caixa sem fundo, mas por algum motivo ainda guardo suvenirs inúteis como do número do primeiro celular do meu pai, que ele comprou quando eu ainda era criança e que de tão grande e pesado precisava de uma bolsinha só pra ele.

Eu queria só guardar o souvenir da gargalhada da minha madrinha e da voz dela nos telefonemas de aniversário, que ela nunca esqueceu, mas guardo também a imagem de um monte de flores onde ninguém ria.

Eu queria perder só as coisas que não são coloridas, e lembrar sempre do vô Juca me ensinando a subir no telhado pra pegar um chuchu que nasceu lá pra cima do paiol. Queria guardar a água gelada do rio correndo e fazendo cócegas nos meus pés, a geada ardendo contra os vidros das janelas da casinha de madeira e o fogão à lenha esquentando as meias de lã, mas eu às vezes guardo aquelas sensações ruins do que acaba e não volta.

A gente não passa de um punhado de lembranças, né? Põe algumas coisas na mala e segue vivendo enquanto torce pra que as lembranças mais difíceis de carregar se percam no espaço.

A gente aprende a suportar o insuportável e a ser feliz com isso. Aprende a ser grato quando consegue tirar uma lição ou ensinamento de tudo, bom ou ruim, que um dia viveu.

terça-feira, 29 de março de 2016

Ciclos de tinta

Às vezes me sinto desenhando círculos. Me sinto uma caneta que desenha sempre a mesma coisa, sem ter como apagar. Já achei que devia usar a tinta escrevendo, depois descobri que prefiro desenhar. Escrevi, escrevi, risquei tudo e joguei fora. Também já desejei que a tinta acabasse, já desejei não mais riscar. Hoje desejo aprender a riscar coisas novas: quadrados, linhas, letras, fazer desenhos bonitos… mas continuo desenhando círculos.

Texto desenvolvido na Oficina Literária Boca de Leão.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Fado



Se tratando de alfabeto, penso que a letra F é a menos generosa comigo. Gostaria de ter mais força, foco, e um pouco de, mas parece que estou fadada a encontrar somente falhas, fadiga e fracasso.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Os versos de instagram

Vou ser sincero, ser escritor é contar mentiras para fazer com que os outros se sintam melhor. E eu minto para mim também, viu? Repito em minha cabeça meia dúzia de lembranças falsas até que elas se tornem reais. São só um monte de bobagens para nutrir minha esperança e me manter vivo, mas a essa altura da vida eu já não sei mais quais memórias são verdadeiras e quais foram plantadas.

Conheci a Joana na 5ª série. Sei que ela realmente existiu porque tenho uma dessas fotos anuais de colégio onde aparecemos juntos, eu só não sei se ela foi o amor da minha vida ou se foi só uma colega de turma com quem eu mal trocava um oi. Me confundo porque comecei a mentir muito cedo, em parte para passar o tempo imaginando como seria uma vida mais emocionante ou apenas diferente da que eu tinha. O problema é que mentir vicia, é um vício difícil de largar e acabei tornando isso uma profissão.

Sendo tudo real ou não, dor é uma coisa verossímil, né? Tem gente que se identifica e tal… aí eu pego esse monte de mentiras, junto tudo formando uma maior ainda, aumento alguns fatos, acrescento outros detalhes, troco os nomes das pessoas e… voilà! Nasce mais um livro, me autointitulo escritor.

A verdade é que eu escondo a minha frustração escrevendo umas poucas palavras bonitas, mas ao invés disso poderia postar uma foto sorrindo no instagram. Sou meio antiquado.




Texto originalmente publicado do blog Maruja Marota.